
Um Arquivo, uma História – Elaine Sanceau
Neste dia 9 de junho, o Arquivo da FLUP inaugura a rubrica, “Um Arquivo, uma História”, e destaca o arquivo pessoal de Elaine Sanceau (1896-1978).
Com origens familiares francesas, a escritora e biógrafa Elaine Sanceau nasceu em Croydon, Reino Unido, em 1896. Figura cosmopolita, estudou em Montreux, na Suíça, antes se mudar para o Brasil com a família. Ficaria no continente americano até ao início da década de 1930, quando veio habitar em Portugal, no Porto.
Em 1939 publicou a sua primeira obra histórica, uma biografia de Afonso de Albuquerque. A esta seguir-se-iam mais trinta e sete livros (e muitos artigos) nas quase quatro décadas seguintes, incluindo outros trabalhos biográficos (de figuras como o Infante D. Henrique, os monarcas D. João I, D. João II e D. Manuel e D. João de Castro), obras sobre outros temas ligados ao período da expansão marítima, desde o povoamento do Brasil às relações com o império etíope, um livro sobre a histórica British Factory do Porto e ainda vários volumes ilustrados recontando diversos aspetos dos “Descobrimentos” portugueses, destinados ao público juvenil.
Embora, regra geral, as suas obras tenham um caráter mais de divulgação e não apresentem material inédito ou conclusões novas, a erudita escritora nunca negligencia a consulta das fontes, seja na Torre do Tombo ou no Arquivo Histórico Ultramarino. Dedicou-se inclusive à edição de alguns documentos, nomeadamente as cartas de D. João de Castro (SANCEAU [ed.], Cartas de D. João de Castro, 1954) e a compilação de correspondência conhecida como a Coleção de São Lourenço. É talvez necessário apontar nesta Autora uma aceitação por vezes acrítica da informação relatada nas crónicas e cartas que cita. Na escrita, o seu estilo é de carácter literário, dando cor e vivacidade, além de detalhe, às narrativas que tece.
A visão histórica de Elaine Sanceau é tradicional na sua apresentação e valores e em larga medida personalista, focada muito mais em personalidades e ações individuais do que em estruturas ou processos.
As figuras de D. Henrique, D. João II e Afonso de Albuquerque são vistas como sendo quase unicamente responsáveis, nos seus respetivos momentos históricos, por impulsionar e dirigir a missão portuguesa de descoberta e conquista (ao infante e seus irmãos, por exemplo, é atribuída a responsabilidade pela expedição de Ceuta). Devido a esta visão, o seu caráter é enaltecido e os seus feitos elogiados, adotando a biógrafa um certo partidarismo e apologia dos seus biografados contra os inimigos e críticos – antigos e modernos – dos mesmos. Essa defesa é estendida a outras figuras, caso de Vasco da Gama, ao passo que noutros casos, como D. Manuel I, o retrato é mais crítico e ambivalente.
Numa nota diferente, a historiadora preocupou-se consistentemente em enfatizar os múltiplos papéis das mulheres na Expansão e nas várias partes do mundo onde Portugal tinha presença, destacando a coragem e resiliência destas “heroínas esquecidas” e apresentando, como era seu costume, muitos casos exemplificativos retirados de fontes das épocas estudadas. A sua última obra, publicada postumamente, era dedicada a este tópico das mulheres no “Ultramar”.
Sanceau interessou-se ainda pela história da sua cidade de adoção, o Porto. Além da já referida obra sobre a comunidade de comerciantes britânicos que lá habitava (com a qual a Autora, ela própria imigrante, terá certamente sentido afinidade), redigiu também vários artigos, publicados nos boletins culturais da câmara municipal portuense, sobre aspetos e curiosidades de história local, por regra baseando-se nalgum documento extraído dos arquivos municipais.
Em jeito de recompensa pelo seu amor à cidade invicta, a historiadora recebeu a Medalha de Ouro da cidade do Porto, em 1968. Para além desta homenagem, recebeu o Prémio Camões (em 1944, pela obra Em demanda do Preste João) e foram-lhe outorgadas as Ordens de Santiago da Espada (1953) e do Infante D. Henrique (1961). Foi membro do Instituto de Coimbra, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e do Centro de Estudos Ultramarinos. Elaine Sanceau faleceu em 1978. Foi dado o seu nome a uma rua no Porto, cidade que a historiadora tanto apreciava.
In: Dicionário de Historiadores Portugueses: Da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo https://dichp.bnportugal.gov.pt/imagens/sanceau.pdf

Caracterização do arquivo pessoal Elaine Sanceau, disponível para consulta no Arquivo da FLUP:
496 fotografias, 3 quadros, 695 cartas (cerca de…), 8 faturas, 12 postais, 20 listas com despesas de viagem, 6 relatórios, 2 mapas, 2 livros-diários, cartões pessoais, 2 placas de metal para imprimir cartões pessoais, 1 mala de viagem.
Livros disponíveis na Biblioteca da FLUP:
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